O Estado de Israel demonstra falta de vontade de garantir que suas vitórias militares sejam acompanhadas por verdadeiros “dias seguintes” no plano político e diplomático.
Desde 28 de fevereiro, Benjamin Netanyahu espera concretizar seu projeto de remodelação do Oriente Médio por meio da guerra. O ataque em grande escala contra o Irã é, sem dúvida, conduzido em conjunto com os Estados Unidos, mas o Estado de Israel espera ser o principal beneficiário, já que pretende derrotar de uma vez por todas seu principal inimigo e consolidar sua hegemonia em toda a região. Ao bombardear Teerã, o primeiro-ministro israelense não está rompendo com nenhuma de suas promessas de campanha, ao contrário de Donald Trump. Pelo contrário, trata-se de um objetivo perseguido há décadas.
Este ataque brutal é conduzido em flagrante violação do direito internacional e constitui um crime de guerra, independentemente da repulsa que, com toda a razão, suscita um regime iraniano causador de instabilidade regional e opressor do seu próprio povo. Seu impacto já é mundial. Quanto mais tempo durar, mais pesará sobre países que, no entanto, nada têm a ver com esse conflito.
A facilidade com que o exército israelense assumiu gradualmente o controle do espaço aéreo iraniano ao longo de três ondas sucessivas de confrontos, de abril de 2024 até 28 de fevereiro, pôs em evidência as fraquezas da República Islâmica. E lembra que esta última estendeu sua influência pelo Oriente Próximo e Médio, aproveitando-se sobretudo de oportunidades, notadamente a expulsão pela Israel da Organização para a Libertação da Palestina do Líbano, em 1982, ou o desmantelamento do regime iraquiano pelos Estados Unidos, em 2003.
Essa esmagadora superioridade do exército israelense e da maior potência militar do mundo deixa poucas dúvidas sobre o desfecho do conflito: o regime iraniano acabará sendo derrotado militarmente, mas a que custo para a região? E com que resultados? Esta guerra ocorre depois que milhares de toneladas de bombas já foram lançadas por Israel sobre Gaza, o Líbano e a Síria, após os massacres de 7 de outubro de 2023 perpetrados pelo Hamas palestino. A paz, por sua vez, permanece mais ilusória do que nunca.
No discurso israelense, todas as guerras são apresentadas como existenciais. Na realidade, elas o são cada vez menos para o Estado de Israel e cada vez mais para sua periferia, pois a hegemonia que Israel pretende estabelecer há mais de dois anos reconhece apenas direitos e nenhum dever.
Impunidade
Suas guerras vêm acompanhadas de massacres e ruínas, com o objetivo de fragmentar e enfraquecer tudo o que for possível. Gaza foi, e continua sendo, o campo de testes, assim como a Cisjordânia ocupada, agora alvo de um terror imposto pelos colonos israelenses com a cumplicidade do exército. A regra vale também para o Líbano e para a Síria, bombardeada massivamente desde a derrubada de Bashar Al-Assad.

Donald Trump e Benjamin Netanyahu, o primeiro-ministro israelita,
em uma conferência para a imprensa em Mar-a-Lago (Flórida), a 29/12/2025. ALEX BRANDON/AP
Nesta “pax hebraica”, que não é paz e muito menos justiça, um cessar-fogo não passa da continuidade da guerra sob outra forma, e cada oportunidade é aproveitada para ampliar o controle de territórios por parte de Israel, em benefício exclusivo deste, com total impunidade e com o apoio ativo de Washington.
Essa incapacidade, ou essa falta de vontade do Estado de Israel de garantir que suas vitórias militares sejam acompanhadas por verdadeiros “dias seguintes” no plano político e diplomático, pesa sobre o conflito imposto ao Irã. Pois isso torna a guerra o único horizonte.
Le Monde, 09/03/2026.
